março 31st, 2011

Sucker Punch

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Em O Mágico de Oz (1939), o diretor Victor Fleming celebrou a imaginação vinda do sonho. Dormir e entrar num mundo fantástico onde tudo é possível sempre foi um artifício representante de uma das diretrizes da sétima arte. Sonhar acordado é ir ao cinema inocentemente e permitir que o filme capture livremente a nossa atenção. Uma proposta que continuou por muito, muito tempo, sendo naturalmente renovada, retocada por cineastas visionários, preocupados em adaptar o cinema para os conceitos de cada época.

Em Sucker Punch: Mundo Surreal (Sucker Punch, 2011), o diretor Zack Snyder ilustrou profundamente a imaginação de quem deixa o cérebro do lado de fora do cinema. Ser lobotomizado e entrar num mundo fantástico onde tudo é possível parece mais um convite para o público experimentar uma das diretrizes do cinema atual, em que sonhar virou sinônimo de alienação. A inocência deu lugar ao cinismo. E Sucker Punch é perfeito nesta proposta.

Snyder é mesmo visionário. Talvez um gênio, seja lá o que isso quer dizer hoje em dia. Seu Sucker Punch é O Mágico de Oz daqueles que nunca viram O Mágico de Oz. Ou daqueles que não reconhecem a importância e o legado do clássico de Victor Fleming de mais de 70 anos. Daqueles que acham que o cinema começou há cinco, dez, 15 anos. Daqueles que entenderam somente o fascínio pela tecnologia de Steven Spielberg e George Lucas desde a década de 70 e não compreenderam o espírito de seus filmes. Sucker Punch é a celebração máxima da falta de cérebro. Grande sacada de Snyder, já que é um filme sobre lobotomia.

A Dorothy atual atende pelo nome de Babydoll (Emily Browning), arrastada pelo padrasto até um manicômio, onde será lobotomizada e passará o resto de seus dias com o cérebro reduzido a zero vezes zero. Até chegar neste ponto, Zack Snyder explora a narrativa cinematográfica somente com imagem, som e música. Mas ao contrário do que aprendemos em filmes como 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968) e Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), o silêncio e a paciência não têm vez como contrastes perfeitos. Não é uma reclamação pessoal. É só observar o cinema de hoje. Snyder prefere o excesso do excesso com cortes rápidos, closes velozes e exagerados, câmera lenta e muito, mas muito barulho. Não culpo o adulto nem mesmo crianças e jovens com QIs consideráveis que fiquem exaustos com 10 minutos de filme.

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Sem saída, a monossilábica Babydoll começa a sonhar a sua Oz. Seu delírio, que domina o filme a partir daqui, é a fração de segundo que leva para o martelinho completar a lobotomia. Tudo muito bem calculado por Snyder – o que explica a protagonista de poucas palavras: Ela não tem cérebro.

A criatividade do cineasta para ilustrar o público do cinema na atualidade não tem fim: Babydoll projeta em seu sonho as outras (lindas) meninas do manicômio – agora transformado em bordel (!). Para fugir do lugar, Babydoll, Rocket (Jena Malone), Blondie (Vanessa Hudgens), Sweet Pea (Abbie Cornish) e Amber (Jamie Chung) precisam encontrar um mapa (!), uma faca (!!) uma chave (!!!) e o fogo (!!!!). Em cada etapa, enquanto Babydoll entrega uma dança sexy, elas viajam no sonho dentro do sonho (Opa, A Origem?).

Ainda aqui? Ok, cada aventura traz inimigos que incluem zumbis nazistas, orcs, dragões, robôs e samurais godzillas de pedra. Para ilustrar tudo isso, Snyder capricha nas cenas de ação, mas, quando a primeira delas surge na tela, duvido que 90% do público esteja concentrado no que está vendo. Até mesmo aqueles que não leem Machado de Assis para a prova e tentam passar no chute.

Snyder também capricha na trilha rock n’ roll, na fotografia, nos efeitos visuais, no figurino e na direção de arte – os cenários são impressionantes, mas lembram o estilo da revista e da animação Heavy Metal (1981) e até (descaradamente) O Senhor dos Anéis (2001/2002/2003). Não, não é falta de criatividade. Snyder é antenado. Pelo menos no visual dos filmes de sua preferência.

Snyder quer celebrar o cinema (o de hoje, claro), busca novas formas para se contar uma história e homenageia o público que não gosta de pensar. O que você quer mais? Zack Snyder é o diretor de 300 (2006), Watchmen (2009) e A Lenda dos Guardiões (2010). Em Sucker Punch, ele se superou pela autocrítica. Fez o filme que define uma geração que vai ao cinema e é sim culpada pela avalanche de produções horrendas que infestam as salas de exibição do mundo inteiro. Ora, o tráfico de drogas existe porque há consumidor.  Gênio esse Zack Snyder.

Quem mais poderia arriscar a carreira fazendo propositalmente um péssimo filme para representar e criticar uma época, uma geração? Veja bem: Hollywood deixou o cineasta filmar um roteiro original e sabemos muito bem que isso é raridade. Mais: Entregou a reinvenção de Superman em suas mãos. Isso é status ou não? Tenho certeza que após Sucker Punch, pelo atual cenário, estão todos satisfeitos e tranquilos quanto ao destino do Homem de Aço, que já esteve na pele de Christopher Reeve numa época mais romântica, dominada por roteiristas, diretores e produtores que viram e entenderam O Mágico de Oz. Mas isso é passado. Acabou. A referência, agora, é Sucker Punch. Zack Snyder só pode ser um gênio. Segure sua mão, ouça com atenção Where’s My Mind?, do Pixies, e admita que o futuro do cinema chegou. - Otavio Almeida

Sucker Punch: Mundo Surreal (Sucker Punch, 2011)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Zack Snyder e Steve Shibuya
Elenco: Emily Browning, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Abbie Cornish, Jamie Chung, Scott Glenn, Carla Gugino, Oscar Isaac e Jon Hamm

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