abril 5th, 2011

Em Blu-ray/DVD: 72 Horas

The Next Three Days
O problema de 72 Horas (The Next Three Days, 2010) é que Russell Crowe não é Liam Neeson. Mas a culpa não é do astro. Explico: Na série de TV Prison Break, que fez um sucesso danado, o protagonista não era policial nem militar. Era simplesmente um gênio. Em Duro de Matar (1988), Bruce Willis se vê cercado por terroristas dentro de um gigantesco prédio comercial. Qual é a probabilidade do cara sair vivo dali e ainda por cima como herói? Poucas, eu diria. Mas, ei, ele é um policial. Bom, então, a gente já pode começar a conversar, não? Em 72 Horas, remake do francês Tudo por Ela (2008), Russell Crowe é um policial? Não. Um veterano do Vietnã? Não. Ele é um pacato professor de inglês que precisa tirar a mulher (Elizabeth Banks) da prisão. Ah, tá. Me engana que eu gosto. Mas aí você pode me desafiar e dizer algo como “Che Guevara foi médico e construiu uma revolução armada.”

Mas admita: Fica difícil acreditar num thriller de ação protagonizado por um professor. Ainda mais quando Russell Crowe não tem o currículo “bate e arrebenta” de Chuck Norris, Mel Gibson, Charles Bronson, Steve McQueen, Bruce Willis e, recentemente, Liam Neeson. Aliás, o Sr. Neeson aparece lá pelo meio de 72 Horas, como um sujeito carrancudo que fugiu de sete prisões (SETE) e ensina o caminho das pedras ao inexperiente Crowe. Ah, tá. Quer dizer então que a verossimilhança está no fato de Neeson ter ensinado tudo ao protagonista? Ok. Neeson é hoje maior que Chuck Norris. Mas Russell Crowe não é Liam Neeson.

Falo em verossimilhança porque 72 Horas se apresenta como suspense. A correria, a ação propriamente dita, acontece só no final. Se Paul Haggis, que dirigiu Crash (2005) e No Vale das Sombras (2007), não tornou a transformação do personagem de Crowe convincente, o astro vencedor do Oscar por Gladiador (2000), sabe o que faz e dá conta do recado. Se você se pegar torcendo por Crowe e sua esposa no final do filme, a culpa é toda deste extraordinário ator. Quando a correria começar, você nem vai pensar se uma simples troca de jaquetas durante uma perseguição é mesmo a estratégia mais fácil para despistar a polícia. Apenas coloque na conta de Russell Crowe e aproveite a viagem.

De qualquer forma, as intenções de Haggis são ótimas: O filme não é sobre a fuga. É sobre a humanidade sendo sugada de um homem comum, que não tem mais onde nem a quem recorrer. Há três questões interessantes levantadas pelo diretor. Uma delas é a relação do personagem de Crowe com seu pai, interpretado pelo veterano Brian Dennehy. Os dois mal se falam. Mas quando o velho descobre o que seu filho pretende fazer para tirar a esposa da prisão, ele o abraça calorosamente em silêncio. É como se Crowe fosse abençoado pelo pai, que viu no filho, enfim (e do seu jeito), um homem fazendo coisa de homem.

A outra questão envolve o casal principal. Vendo no que John (Russell Crowe) se tornou, será que Lara (Elizabeth Banks) conseguirá viver feliz ao lado do marido? Seria este o homem que ela aprendeu a amar? Ele vai ao inferno para tirá-la da prisão e fará isso nem que seja o último de seus atos. Não seria uma atitude de um homem desesperadamente apaixonado? Ou teria ele perdido completamente a sua alma? A terceira (e polêmica) questão é a exposição em detalhes do planejamento de um crime, sem diversão embutida. Haggis acompanha Crowe arquitetando um crime de forma séria – diferentemente de Steven Soderbergh, por exemplo, em Onze Homens e um Segredo (2001), que é entretenimento puro. Aliás, falta senso de humor em 72 Horas, o que é (com o perdão do trocadilho) um crime para um exemplar do gênero. Mas se isso é ou não perigoso, acho bom lembrar que Paul Haggis fez apenas um filme. São discussões interessantes, que não estão em qualquer Desejo de Matar ou Braddock. - Otavio Almeida

72 Horas (The Next Three Days, 2010)
Direção e roteiro: Paul Haggis
Elenco: Russell Crowe, Elizabeth Banks, Olivia Wilde, Brian Dennehy e Liam Neeson

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