dezembro 31st, 2011

Compramos um Zoológico

we bought a zoo
É fácil bater em Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo, 2011), de Cameron Crowe. Entendo os críticos. Há 10 anos atrás, o filme seria certamente um dos finalistas do Oscar. Há 20 anos, seria um dos favoritos. Mas os tempos mudaram. Ficamos mais cínicos. Para o bem ou para o mal. Hoje, seu filme parece inocente até demais. Ou (por que não?) antiquado. Parece. Fã de Frank Capra, Billy Wilder – chegou a escrever o livro Conversations With Billy Wilder -, entre outros cineastas otimistas e exímios contadores de histórias (como o próprio), Crowe não consegue trair aquilo que tirou de seus mestres. É inegável, por outro lado, que poucos filmes lançados atualmente exalem tanta paixão em cada cena vista na tela, como num longa dirigido pelo cara que nos deu Jerry Maguire e Quase Famosos.

A sinopse do viúvo, pai de dois filhos, que arrisca o futuro de sua família ao apostar todas as suas fichas na recuperação de um zoológico abandonado parece perfeita para uma gostosa Sessão da Tarde. Mas não quando percebemos o nome de Cameron Crowe na ficha técnica. Prepare-se para muita emoção em seu estado puro.

Esta é a saga autobiográfica de redenção do jornalista Benjamin Mee (Matt Damon, ótimo). Jamais óbvia. Não me lembro de ter visto outro viúvo retratado no cinema que não apresentasse sinais evidentes de depressão, precisando urgentemente dar a volta por cima.  E ele precisa. Crowe constroi seu personagem de dentro pra fora. Lógico que Mee passa por um período de luto, mas seu espírito aventureiro o leva a convidar seus filhos, que acabaram de perder a mãe para uma jornada de redescoberta. Salvar a família é salvar a si próprio.

Lentamente, Crowe nos apresenta aos Mee. Entendemos rapidamente a dor da família e a força de vontade que move Benjamin. Sua opção de viver mais próximo da natureza, longe da cidade, intensifica o elo cada vez mais distante do homem com a vida. É possível acreditar nessa transição. Graças a Crowe, seu elenco, além do diretor de fotografia Rodrigo Prieto, e Jónsi, o líder da banda Sigur Rós, que entrega a trilha sonora mais original do ano.

Interessante que o filme use animais para falar de seres humanos – muitos, hoje, preferem bichos a pessoas (outra amostra do cinismo que se alastra pelo mundo). Gosto como Crowe usa os animais do zoológico para, de certa forma, unir família e amigos. Na extraordinária cena em que pai e filho se reconciliam no “adeus” a um dos animais da história, Crowe pula o sentimentalismo barato de um Marley & Eu e se concentra nos personagens humanos. Filmes deveriam ser sempre sobre personagens. Na sequência, numa cena ainda mais emocionante – aquela das fotos -, Crowe diz que a morte estabelece um novo começo, quando finalmente fazemos as pazes com a vida e seguimos em frente. São momentos que comprovam a profundidade dramática do filme, apesar da visível simplicidade buscada pelo roteiro.

“Tudo o que precisamos são 20 segundos de coragem insana”. É o bordão do filme que pede descaradamente para que você abra seu coração, deixe as ironias fora da sala de cinema e se entregue a um mundo que só existe do lado de lá da tela. Repare, por exemplo, como Crowe dá ênfase à luz do sol. Aliás, você já deve ter visto algum filme que parece ter sido feito somente para você, não? Por essas e outras razões que não estão nesse texto, afinal, algumas delas são pessoais demais, Compramos um Zoológico falou diretamente comigo. Espero que fale com você também. Feliz ano novo.

Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo, 2011)
Direção: Cameron Crowe
Roteiro: Cameron Crowe e Aline Brosh McKenna
Elenco: Matt Damon, Scarlett Johansson, Thomas Haden Church, Colin Ford, Maggie Elizabeth Jones, Angus Macfadyen, Elle Fanning, Patrick Fugit e John Michael Higgins

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