Tudo Pelo Poder

É possível um candidato se manter fiel às suas convicções desde o início da campanha política até a possível eleição? A mesma pergunta serve para os seus quatro anos de governo. Tudo Pelo Poder (The Ides of March, 2011), o quarto filme de George Clooney como diretor tem muito a dizer sobre isso para… quem mesmo?
Para o eleitor que confia cegamente em seu candidato, talvez seja um balde de água fria. Afinal, vencer a qualquer custo só pode ser parte do jogo de intrigas da oposição. Já aquele que acredita na lei e procura andar na linha, assim como seu político ideal, talvez ache que George Clooney esteja criticando o atual governo americano, que esteve bem longe de cumprir tudo o que prometeu. Ainda mais quando seu filme fala de um candidato à presidência dos Estados Unidos que venha do Partido Democrata, como Mike Morris (o fictício personagem de Clooney) e o próprio Barack Obama. Por outro lado, há o eleitor desiludido ou até aquele que não coloca a mão no fogo por ninguém. Esse perfil de espectador não deve ser seduzido ou impressionado pelo cinismo, as reviravoltas e as traições que acontecem ao longo de Tudo Pelo Poder. E quanto ao seu diretor politizado? O democrata Clooney está analisando Obama ou suas próprias ideias políticas? Ou as duas coisas? O personagem de Ryan Gosling é George Clooney pensando sobre o atual presidente (e os democratas)?
São várias formas de se ver um filme. Mas, ei, não estamos falando de realidade. O que importa aqui é cinema, não? E, apesar de todo seu evidente engajamento, George Clooney pensa primeiro em cinema.
É por isso que seu roteiro também assinado por Grant Heslov (dupla por trás do superior Boa Noite e Boa Sorte) e Beau Willimon – autor da peça Farragut North que deu origem a Tudo Pelo Poder – concentra-se sabiamente não no político, mas nos homens que organizam sua campanha. Nas pessoas que trabalham por trás do candidato, no backstage, preparando o cenário, os discursos, acompanhando pesquisas e projetando os próximos passos. Facilitando assim a conexão, cumplicidade do público em geral com o filme. Mais precisamente em seu jovem assessor de comunicação, Stephen Myers (o extraordinário Ryan Gosling). Ter um personagem comandando o show, um olhar a ser acompanhado pela plateia, isso faz toda a diferença e transforma Tudo Pelo Poder primeiramente em um filme de ficção. Não em um estudo de cenário, o retrato de uma época, uma geração, o que fatalmente o deixaria limitado, envelhecido no futuro. A transformação do protagonista, que domina o filme da metade para o final, tira Tudo Pelo Poder do lugar comum.
Conta a favor do filme que Clooney, o diretor, centralize a discussão sobre caráter no ser humano, no indivíduo, na linha tênue que o separa do político, do profissional. Antes de julgar as ações dos personagens dentro de suas funções, repare como Clooney sempre acha espaço para humanizá-los. Esse é o foco. Não seu elenco, que é de fato excepcional, ou seus diálogos espertos. Ou seu cinismo. É o lado humano que traduz qualquer tema ou cenário para o espectador leigo.
Tudo Pelo Poder (The Ides of March, 2011)
Direção: George Clooney
Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon
Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Marisa Tomei, Max Minghella e Jeffrey Wright



Perfeito


De verdade, adorei Tudo Pelo Poder. É exatamente como você disse, por se concentrar mais em ser um thriller do que um filme político, o longa de Clooney é brilhante. Mesmo para os leigos funciona como entretenimento e para os mais interessados, uma ótima crítica política. Afinal, até o (aparente) mais bondoso dos personagens é corrompido pelas intrigas políticas.
JÚLIO
Sim. Pode falar sobre o momento, sobre uma geração, sobre o governo. Seja o que for. Mas não pode deixar de ser cinema. Abs!
Achei “Tudo Pelo Poder” um dos melhores filmes do ano. Toda a evolução do personagem do Gosling é impressionante, o filme mostra com detalhes a maneira de como inevitavelmente a política corrompe os homens. É um ramo aonde não pode se apenas acreditar em algo, é necessário jogar com as sujas regras do jogo, coisas que poucos conseguem.
Fora a direção de Clooney, exepcional, consegue deixar o espectador na beirada da cadeira praticamente o filme todo.