Cavalo de Guerra

A história de um cavalo, que se separa de seu jovem dono e parte para os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial? Você provavelmente vai achar Cavalo de Guerra (War Horse, 2011) piegas, manipulador e chantagista. E ele é. O que dá a você duas opções: se entregar ao filme de Steven Spielberg ou abandoná-lo. Agora, dizer que é bom ou ruim por causa disso significa escassez ou total ausência de argumentos.
Hoje em dia, nada mais choca quem vai ao cinema. O som e as cores aposentaram uma fase da sétima arte. Desde então já ouvimos palavrões de todos os tipos. Vimos beijos avassaladores, atores e atrizes nus. Às vezes, até nu frontal. Sexo não é mais tabu. Nem mesmo o cinema comercial tem problemas com isso, desde que Sharon Stone e Instinto Selvagem se tornaram populares. Drácula de Bram Stoker, de Coppola, também é todo safadinho. Faz tempo, não? Sexo bonito, sexo violento. Tanto faz, porque nada mais choca. Filho matando os pais e vice-versa. Nada choca. Estupro em indies como Irreversível, estupro em blockbusters como Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Nada mais choca a plateia de hoje. Os filmes são cada vez mais violentos, agressivos. Nem Batman foge disso. Diria que ser ousado é ser piegas em pleno século 21. É remeter ao passado em técnica e tom quando emoções e sentimentos exacerbados não eram criticados ou reduzidos em nome da ironia que os tempos atuais pedem (ou exigem). Está certo? Não sei. Está errado? Por que estaria?
Um filme deve ser avaliado pelo que ele é. Não pelo que você gostaria que fosse. Cavalo de Guerra é uma homenagem de Steven Spielberg ao cinema de 50, 60 anos atrás. Ora, você deve saber que os filmes não começaram com Magnolia, Beleza Americana e As Horas. Nem mesmo com Rastros de Ódios e Como Era Verde Meu Vale, ambos de John Ford, o maior homenageado em Cavalo de Guerra. E por que Spielberg não tem o direito de reverenciar uma época do cinema? Ou alguns de seus mestres? Cavalo de Guerra é assim, inocente, onde tudo é verde e azul, rodado sem câmera com Mal de Parkinson, deliciosamente antiquado, heróico e grandioso em todas as suas intenções e emoções, seja para rir, chorar ou vibrar com as situações e as relações construídas na tela.

A definição de blockbuster só veio no fim dos anos 70. Ford e Wyler eram as diversões de suas épocas. Será que Fincher, Payne e Aronofsky sabem mais que Hawks, de Mille, Fleming, Vidor e Lean? O fato é que um precisou do outro para o cinema sobreviver e evoluir. Então, onde está escrito que um diretor não pode manipular sua plateia ao seu bel prazer? Payne não faz você ter pena de Paul Giamatti em Sideways? Fincher não te arremessa com tudo naquele final de Seven? Você não entra na mente, na loucura de Natalie Portman em Cisne Negro? É indiferente ao sofrimento de Bjork em Dançando no Escuro? Vamos nos prender a gêneros então: O Exorcista, maior clássico do horror, não é manipulador? Não é apelativo? E o que é aquela cena do vômito pra você? Em Quanto Mais Quente Melhor, uma das melhores comédias de todos os tempos, você não ri exatamente quando Billy Wilder quer? Vamos polemizar: você não entra de cabeça no mistério envolvente de 2001 – Uma Odisseia no Espaço? Faz isso porque quer ou porque Kubrick quis? Você odeia Alex na primeira metada de Laranja Mecânica para depois defendê-lo? São casos e casos. Filmes e filmes. Onde está escrito que isso é proibido em dramas? Não pode porque faz escorrer lágrimas dos olhos? Fica fácil quando quando o diretor é um talentoso contador de histórias, como Steven Spielberg, não? A verdade é que ninguém vê o mesmo filme com a visão de outra pessoa. O cinema exige várias interpretações. Qual é a correta? Será que ela existe?
Você não gosta quando o bichinho morre no final? Desculpe-me, mas Cavalo de Guerra não é esse tipo de filme. Ele não se torna piegas de uma hora pra outra. Ele é assim do começo ao fim. Não muda de tom para conquistar o público a todo custo. Logo, não engana ninguém. Você não consegue acreditar em cenas que não acontecem no mundo do lado de cá da tela? Crer nas atitudes do cavalo Joey (80% do filme é do ponto de vista dele) é uma ofensa a sua inteligência? Eu diria que isso é Spielberg nos convidando para uma entrega total ao cinema, este templo sagrado, lugar onde coisas mágicas e loucas podem acontecer (se você assim permitir). Talvez alguns espectadores não reclamassem do filme se Spielberg optasse pela narração em off, dando um “quê” de fábula à Cavalo de Guerra. Mas quem disse que ele era obrigado a fazer isso? Quem deixou registrado em cartório que o maestro das antigas John Williams não pode tocar sua música o tempo todo? Quem disse que a montagem “suave” de Michael Kahn não pode ser baseada nos filmes da velha Hollywood? Por que ela deve ter ritmo de videoclipe? Quem ama cinema ficará nas nuvens quando Kahn emendar o crochê de Emily Watson na plantação do lado de fora da casa – uma das edições mais espetaculares que eu já vi. Por que a excepcional fotografia de Janusz Kaminski não pode estourar a luz nem carregar nas cores que lembram uma cena de E o Vento Levou? Entenda: não é imitação. Mais que referência é “reverência”. Tudo para Spielberg retomar duas vertentes do cinema americano: a valorização da família e a volta para casa, que tem a terra como um dos símbolos – um dos ouros de John Ford e o maior tesouro de E o Vento Levou.
Em Cavalo de Guerra, Spielberg parece filmar com os mesmos recursos utilizados por John Ford, por exemplo. É um filme à moda antiga? Sem dúvida. Mas em espírito. A realização tem o apoio da tecnologia que os diretores daquela época não tiveram a chance de usar. Até onde foi a fotografia de Kaminski e os efeitos digitais? Não interessa. Ou você quer procurar onde o cavalo de verdade some para dar lugar ao CGI na impressionante sequência da corrida em disparada pelas trincheiras? E o que dizer do som do filme? Há poucos registros sonoros de longas sobre a Primeira Guerra Mundial capazes de serem reaproveitados. Talvez o mago Gary Rydstrom e Cia. tenham feito tudo do zero. Repare na cena (antes do estouro da bomba de gás) em que uma metralhadora alemã dizima a tropa inglesa. Seus disparos soam como “antepassados” da metralhadora que aniquila os aliados no desembarque da Normandia, na Segunda Guerra Mundial, em O Resgate do Soldado Ryan.
Spielberg ainda é fiel a Spielberg. O conceito de amizade, separação e conflito que resultam em superação já foi visto em Império do Sol, E.T. – O Extraterrestre, A.I. – Inteligência Artificial, e até em produções do cineasta, como a animação Fievel – Um Conto Americano. Spielberg dá de ombros para as acusações de jamais ter se tornado adulto. Um “Peter Pan”. Ouviu muito isso quando se aventurou pelo drama “sério”, em A Cor Púrpura e Império do Sol. Até fazer A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, Munique. Parece traição voltar a ver o mundo (e o cinema) com os olhos e o coração de um menino ingênuo? Ou como a velha e ingênua Hollywood da era de ouro? Soa mais como um problema a ser resolvido pelo espectador que ou não gosta de Spielberg ou desconhece sua filmografia, além de sua comprovada importância. Ou a própria epopeia do cinema americano.
Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Lee Hall e Richard Curtis
Elenco: Jeremy Irvine, Emily Watson, David Thewlis, Peter Mullan, Niels Arestrup, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch, Toby Kebbell, Patrick Kennedy, David Kross, Celine Buckens, Robert Emms, Rainer Bock, Geoff Bell, Leonard Carow e Matt Milne



Perfeito


O que dizer depois dessas palavras.
P-E-R-F-E-I-T-O
Tenho a mesma visão que você sobre tudo que disse.
Parabéns pelo texto.
KADU
Obrigado! Abs!
Eu respeito caras como Spielberg,Scorsese e Coppola entre outros,você colocou muito bem,o cinema não começou ontem.Mas me chama atenção como a cena do fuzilamento de dois soldados alemães causou incomodo em alguns criticos.Vou ver “Cavalo de Guerra” no cinema,porque Steven Spielberg não é diretor para esperar o lançamento em DVD.Abraço.
PAULOR RICARDO
Essa cena é excepcional. Serve para jovens cineastas aprenderem antes de fazerem suas inscrições no DGA. Abs!
Superou minhas expectativas, realmente. A cena onde os soldados colocam a guerra de lado para ajudar o Joey é sensacional!
Abrax!
Triste ver que boa parte dos críticos americanos estão com o pé atrás com esse filme devido ao “melodrama exagerado”. Dane-se eles. É do tio Spielberg e eu quero ver!
LUCAS
A cena é ótima. Dificilmente aconteceria na vida real, certo? Mas estamos no cinema. Graças a Deus! Abs!
CLÓVIS
Bom, então você já sabe o que esperar. Relaxe, entregue-se ao filme. Divirta-se! Abs!
Olá Otávio, reparei que voce frequenta muito o site awardsdaily…
Vi que tem bom gosto porque é dos meus sites favoritos, ainda mais nessa época de prémios… E como a Sacha Stone escreve bem…
Mas adoro o hollywwodiano tambem!! kkkkk
ALEXANDRA
Hahahahahaha… Obrigado, Alexandra! Mas adoro a Sasha. O blog é muito bom. Bjs!
Quero tanto conferir este filme, mas o que me frustra mais não é nem mesmo as opiniões regulares que “Cavalo de Guerra” recebeu, e sim que o filme teve uma estreia tão pobre no Brasil… Duvido até mesmo que chegue nas salas de cinema de minha cidade… O que é uma pena, pois eu quero tanto, mas tanto conferir…
Beijos!
KAMILA
Em São Paulo, o lançamento também foi preguiçoso. Pena. Mas “Agamenon” está em várias salas. Viva o que dizem ser o cinema nacional! Bjs!
Talentoso contador de histórias. Exato, Otávio. E é por isso que há muito mais DeMille do que Ford no filme. Não só aqui, mas em toda a filmografia do Spielberg. Abraço.
VINÍCIUS
Acredito em você. DeMille inspirou (e inspira) grandes cineastas. Por que não? Abs!
Excelente crítica, Otávio! E o filme é estupendo, lindo em todos os aspectos!
RAQUEL
Muito obrigado! Bjs!
Acho seus questionamentos, que soam, e, tenho quase certeza que são, retóricos, o que os torna arrogante (você pergunta “Quem deixou registrado em cartório que o maestro das antigas John Williams não pode tocar sua música o tempo todo?”, eu pergunto: “Quem deixou registrado em cartório que o maestro das antigas John Williams pode tocar sua música o tempo todo?”). Se não for o caso – e, honestamente, espero que não sejam, principalmente por adorar seu blog -, me desculpe. Ser manipulativo todo filme é, cinema é a arte disso. Mas fazem isso de forma magistral, de forma sutil, natural e sem apelações (esse é o grande problema!). Por fim, ingenuidade não é o cinema clássico Hollywoodiano, mas achar que Cavalo de Guerra não é violento por motivos artistico, não por motivos puramente comerciais – para abaixar a censura dele. Sinceramente? Homenagem por homenagem, fico com o recente “O Aviador”, do meu rei Martin Scorsese.
Ah é, se sua crítica estiver contestando a arrogancia de cada crítico em achar que seus argumentos são verdadeiros, acho inválido, pois não concordo que eles possuem essa caracteristica. O cinema, como toda arte, é relativo e carece de várias interpretações. E, juro, agora pra terminar: conheço muito bem o inicio do cinema, o periodo de ouro, e continuo achando Cavalo de Guerra um longa mediano, com uma produção bela, sim, mas nada que me surpreenda.
Espero, sinceramente, que não tenha ficado ofendido com meu comentário (se tiver, pode me dizer, mas me desculpo antecipadamente, se for o caso). No entanto, como, ao meu ver, a crítica cinematográfica tem o intuito de promover o debate, a sua foi acertada nisso, afinal, estou aqui questionando. E, como diz Octavio Caruso, eles são sempre necessários!
Belíssimo texto como o filme.
Sem mais palavras.
Embarquei totalmente no filme. As críticas negativas quanto a este filme ficaram no lugar comum e sem argumentos. Também vejo David Lean e Frank Capra na obra. Um filme dos velhos tempos em tempos modernos.
O coração de Spielberg estava no lugar certo o tempo inteiro. Senti isso.
Abraço.
Bom dia Otavio!
Ainda não assisti ao filme por isso não da para contestar ou aprovar tua argumentação, mas lhe confesso que a sua foi uma das melhores resenhas do filme que assisti até agora, e concordo plenamente com você no tocante à manipulação e a outros pontos explorados pelo teu texto… Parabéns pela crítica!
JÚLIO, RODRIGO e JOSÉ BRUNO
Obrigado! Mas, cortando a bola levantada pelo Júlio, acho que concordar ou não com a crítica vai além de gostar ou não do filme. Quem gosta, elogia o texto. Quem não gosta me chama de arrogante. Mas, concordo, fui arrogante. Afinal, defendo o filme com todas as forças. E chamo vocês pra briga, até porque é legal discutir sobre filmes relevantes. Isso engrandece a arte e a nós mesmos. E gostando ou não, Spielberg é relevante, certo? Ninguém registrou nada em cartório. Ninguém definiu nada. Isso é arte. Nós interpretamos. Cada um de um jeito. Como o Rodrigo disse, busquei argumentos. Meus argumentos. Nunca disse que eu estava certo. Ou errado. O José Bruno, por exemplo, não viu o filme e curtiu a análise. É assim que a crítica deve ser vista. Eu acho, pelo menos. E, Júlio, claro que não fiquei bravo contigo, meu velho. Volte mais vezes pra discutir, brigar etc. Precisamos falar mais sobre cinema. O que é sempre bom. Respeito todas as opiniões. E esse texto acima é somente a minha. Aliás, digo que é mais fácil alguém como Steven Spielberg estar certo do que eu, o Júlio, o Rodrigo e o José Bruno. Abs a todos!
Aceito que Spielberg esteja certo pelo seu P-E-R-F-E-I-T-O Tintim. Aliás, viu esse? Recomendo muito. Se achou Spielberg ingênuo em Cavalo de Guerra, vai se deliciar mais ainda assistindo um cineasta moleque, cheio de folego, mas, não entenda errado, extremamente maduro. E, concordo, gostar ou não da crítica vai além de gostar ou não do filme. Afinal, dei somente uma estrela a menos que você. Aliás, que continuemos a debater, claro, como disse. Sempre que quiser, passe pelo Lumi7 e pode me destroçar, se for pra alimentar a discussão – que eu nunca vejo como algo ruim -, será muitíssimo bem aceito. Fico feliz que não tenha se chateado e desculpo qualquer problemas que tenha causado! Abraços!
JÚLIO
Imagina, cara! Não se desculpe. Vamos falar bastante ainda sobre filmes. E estou louco pra ver “Tintim”. Farei isso no fim de semana. Abs!
Olha chapa, eu não critico a pieguice, porque vários filmes de Spielberg tem esses momentos, e ainda é meu diretor responsável pelo meu amor ao cinema. Mas acho que Cavalo de Guerra não é dos melhores dele. À parte isso, uma pequena história para quem quer tornar uma passagem em especial do filme como desculpa para malhar o filme:
Em uma noite de natal, no front europeu – não sei de em 1915, 16 ou 17 – soldados das trincheiras, dos dois lados, estabeleceram um pacto de paz, longe da mesas dos coronéis, generais e burocratas. Pararam a guerra. O território de morte em frente às trincheiras virou território de paz. Eles se saudaram, beberam juntos e até jogaram futebol em um amistoso internacional improvisado.
A notícia chegou aos altos escalões dos dois lados, que ordenou que aquilo parasse imediatamente. Só que, ao voltarem às trincheiras, tiros eram disparados a esmo, não houveram cargas de ataque e os soldados não atiravam uns contra os outros. Eles tiveram que ser transferidos a outras frentes.
A história é real e está disponível para quem quiser pesquisar e pode servir de exemplo para a cena em que um soldado alemão e um britânico se ajudam para libertar Joey.
Não é o melhor filme de Spielberg. Não falo da pieguice e do paternalismo, que até acho que poderia ser menor para homenagear os antigos clássicos – é difícil reproduzir um sentimento social, já que os filmes espelhavam a sociedade como ela queria parecer e não como ela realmente era entre quatro paredes. Spielberg pode sim prestar suas homenagens, e eu particularmente me emocionei no final, não pela história de Joey, mas por ver aqueles tons laranjas contra o sol homenageando Fleming e Ford, mas às vezes me parece faltar uma certa coerência em Spielberg ao longo de toda sua obra. Mas a crueza da guerra em um filme tem seus objetivos, e esconder a morte de dois alemães nas pás de um moinho estabelecem outra direção de objetivos. Mais uma vez, há muita sujeira, mas não há sangue em uma guerra sangrenta.
Spielberg é meu diretor preferido, mas ainda acho que em Cavalo de Guerra ele confundiu um pouco as coisas – é como querer colocar Clube da Luta, de volta no tempo, em plenos anos 40. Cada época, mais do que estilo de filmagem, tem seus valores sociais. Isso não se reproduz. E, à parte isso, porque é questão de gosto, também acho que Spielberg tem seus momentos em Cavalo de Guerra, mas tecnicamente eles está aquém de outros trabalhos, como Resgate.., Lista e Munique.
FABIO
De fato, a emoção surge muito mais pela homenagem ao cinema da época. E acho que é neste ponto que está a força do filme. Spielberg homenageia alguns de seus mestres. E suas épocas. Não consegue ser de certa forma “possuído” por eles. Como foi por Kubrick em “A.I.” e “Minority Report”. Mas acho que ele não quis assim.
Spielberg dá a sua visão daquilo que seus mestres sentiam ao filmar. Seus olhares, suas intenções. A visão que eles tinham de suas épocas. Talvez de sua própria percepção na época sobre o que significa o prazer de ver filmes.
Acho que ele esconde a morte dos alemães (numa cena que considero estupenda) porque cenas desse tipo não eram tão cruas, reais, como o cinema mostra ou pode mostrar hoje em dia. O próprio Spielberg já fez isso em “Ryan”, “Schindler”, “Munique”. Essa sujeira da guerra aparece nesses filmes.
Aqui, a intenção me parece outra, como expliquei acima. Ele não tentou ser John Ford ou Victor Fleming, como acho que tentou propositalmente ser Stanley Kubrick em “A.I” e até “Minority”.
Como você disse, cada época, mais do que estilo de filmagem, tem seus valores sociais. E isso não se reproduz em “Cavalo de Guerra”. Por que? Porque ele não quis. Quis fazer um filme daquela época. Eu acho isso. Uma homenagem.
Certamente, hoje, os filmes espelham a sociedade como ela é. Goste ou não. Mas Spielberg viu com os olhos de um diretor dos anos 40, 50. E me parece impossível (ou perto disso) contar uma história como “Cavalo de Guerra” com o cinismo de hoje. É, bem ou mal, um ponto de vista infantil da guerra. Ou inocente. Afinal, Spielberg já foi contundente nesse tipo de filme.
Abs!
Eu percebo e concordo com as intenções Otávio, e não uso essa desculpa para bater no filme, ainda que eu ache que o que ele quer ele pode conseguir sem a excessividade paternalista, mas como você escreve, eu não posso escrever sobre o filme que eu queria ver, e sim sobre o filme que existe – ou a crítica de cinema seria irrelevante, afinal. Minhna “desculpa” para não achar Cavalo de Guerra um grande filme, apenas bom, é que eu vejo irregularidades de narrativa e técnicas. Não me incomoda o Williams ter sua música tocada toda hora, mas chega um momento em que o excesso anestesia a minha relação com a história, em que ela não permite que eu possa digerir o que está na tela sem que ela necessariamente tenha que me dizer “agora se emocione, agora chore, agora é um momento engrandecedor, agora é um momento épico”. Nesse ponto, ela é intrusiva em muitos momentos.
Que seja, são pontos de vista. Eu entendi o que Spielberg quis fazer, estou avaliando o filme à parte de considerar isso um erro.
PS: A cena do moinho é estupenda, sim.
PS2: De tudo o que vc escreveu, eu só discordo mesmo é de ver Kubrick em Minority, acho que o britânico faria um filme totalmente diferente em estilo e intenções lá. Mas ainda é um dos maus Spielbergs favoritos dos anos 2000.
FABIO
Hmm, interessante. Entramos em outra discussão. Deixe-me explicar melhor o que vi em “Minority Report”. Em “A.I. – Inteligência Artificial”, de 2001, Spielberg continuou, ou melhor, assumiu a visão de Stanley Kubrick.
Spielberg fez um filme dele, é claro. Mas, em certos momentos, parecia estar possuído pelo diretor de “Laranja Mecânica”. A trama tem elementos da filmografia de Spielberg sim. Pai ausente, o mundo no olhar de uma criança, o holocausto (na cena do massacre gratuito dos robôs).
Mas o tom geral é pessimista, bizarro. Impossível não apontar que “agora sai o Spielberg e entra o Kubrick”. A atenção excessiva dada aos olhos é outra pista. No entanto, o tom pessimista desaparece no fim, quando entra o toque spielberguiano, que vê coisas boas até onde não tem.
Acho que ele levou esse tom para “Minority Report”, seu filme seguinte, de 2002. Kubrick, como você disse, faria um filme completamente diferente. Em estilo. Suas intenções seriam mesmo outras. Acredito eu que elas o levariam a recusar a realização do filme. Tem mais a ver com o Spielberg aventureiro. Mas… ele ainda parece possuído pelo colega. Como, novamente, na cena em que Tom Cruise “troca” os olhos. Novamente… os olhos. O olhar. São ligações que faço. Não sei se estou certo, hehe…
Sou muito fã do Spielberg. Acho ele um gênio do cinema pipoca, do cinema; como vc disse; piégas. Mas Cavalo de Guerra me decepcionou. Acho que a chave da decepção está na frase que vc escreveu, “Um filme deve ser avaliado pelo que ele é. Não pelo que você gostaria que fosse”. Tudo bem, o roteiro tem uma barriga, mas eu estava esperando um grande épico e não rolou esse impacto comigo, realmente não me emocionei. Agora, técnicamente, perfeito! Mas achei meio chato e sem grande emoção. Pena.
NIZO
Ah, eu adorei. Cavalinho porreta esse. A cena em que ele atravessa a linha de fogo e fica preso nos arames me doeu na alma. Abs!