janeiro 10th, 2012

Cavalo de Guerra

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A história de um cavalo, que se separa de seu jovem dono e parte para os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial? Você provavelmente vai achar Cavalo de Guerra (War Horse, 2011) piegas, manipulador e chantagista. E ele é. O que dá a você duas opções: se entregar ao filme de Steven Spielberg ou abandoná-lo. Agora, dizer que é bom ou ruim por causa disso significa escassez ou total ausência de argumentos.

Hoje em dia, nada mais choca quem vai ao cinema. O som e as cores aposentaram uma fase da sétima arte. Desde então já ouvimos palavrões de todos os tipos. Vimos beijos avassaladores, atores e atrizes nus. Às vezes, até nu frontal. Sexo não é mais tabu. Nem mesmo o cinema comercial tem problemas com isso, desde que Sharon Stone e Instinto Selvagem se tornaram populares. Drácula de Bram Stoker, de Coppola, também é todo safadinho. Faz tempo, não? Sexo bonito, sexo violento. Tanto faz, porque nada mais choca. Filho matando os pais e vice-versa. Nada choca. Estupro em indies como Irreversível, estupro em blockbusters como Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Nada mais choca a plateia de hoje. Os filmes são cada vez mais violentos, agressivos. Nem Batman foge disso. Diria que ser ousado é ser piegas em pleno século 21. É remeter ao passado em técnica e tom quando emoções e sentimentos exacerbados não eram criticados ou reduzidos em nome da ironia que os tempos atuais pedem (ou exigem). Está certo? Não sei. Está errado? Por que estaria?

Um filme deve ser avaliado pelo que ele é. Não pelo que você gostaria que fosse. Cavalo de Guerra é uma homenagem de Steven Spielberg ao cinema de 50, 60 anos atrás. Ora, você deve saber que os filmes não começaram com Magnolia, Beleza Americana e As Horas. Nem mesmo com Rastros de Ódios e Como Era Verde Meu Vale, ambos de John Ford, o maior homenageado em Cavalo de Guerra. E por que Spielberg não tem o direito de reverenciar uma época do cinema? Ou alguns de seus mestres? Cavalo de Guerra é assim, inocente, onde tudo é verde e azul, rodado sem câmera com Mal de Parkinson, deliciosamente antiquado, heróico e grandioso em todas as suas intenções e emoções, seja para rir, chorar ou vibrar com as situações e as relações construídas na tela.

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A definição de blockbuster só veio no fim dos anos 70. Ford e Wyler eram as diversões de suas épocas. Será que Fincher, Payne e Aronofsky sabem mais que Hawks, de Mille, Fleming, Vidor e Lean? O fato é que um precisou do outro para o cinema sobreviver e evoluir. Então, onde está escrito que um diretor não pode manipular sua plateia ao seu bel prazer? Payne não faz você ter pena de Paul Giamatti em Sideways? Fincher não te arremessa com tudo naquele final de Seven? Você não entra na mente, na loucura de Natalie Portman em Cisne Negro? É indiferente ao sofrimento de Bjork em Dançando no Escuro? Vamos nos prender a gêneros então: O Exorcista, maior clássico do horror, não é manipulador? Não é apelativo? E o que é aquela cena do vômito pra você? Em Quanto Mais Quente Melhor, uma das melhores comédias de todos os tempos, você não ri exatamente quando Billy Wilder quer? Vamos polemizar: você não entra de cabeça no mistério envolvente de 2001 – Uma Odisseia no Espaço? Faz isso porque quer ou porque Kubrick quis? Você odeia Alex na primeira metada de Laranja Mecânica para depois defendê-lo? São casos e casos. Filmes e filmes. Onde está escrito que isso é proibido em dramas? Não pode porque faz escorrer lágrimas dos olhos? Fica fácil quando quando o diretor é um talentoso contador de histórias, como Steven Spielberg, não? A verdade é que ninguém vê o mesmo filme com a visão de outra pessoa. O cinema exige várias interpretações. Qual é a correta? Será que ela existe?

Você não gosta quando o bichinho morre no final? Desculpe-me, mas Cavalo de Guerra não é esse tipo de filme. Ele não se torna piegas de uma hora pra outra. Ele é assim do começo ao fim. Não muda de tom para conquistar o público a todo custo. Logo, não engana ninguém. Você não consegue acreditar em cenas que não acontecem no mundo do lado de cá da tela? Crer nas atitudes do cavalo Joey (80% do filme é do ponto de vista dele) é uma ofensa a sua inteligência? Eu diria que isso é Spielberg nos convidando para uma entrega total ao cinema, este templo sagrado, lugar onde coisas mágicas e loucas podem acontecer (se você assim permitir). Talvez alguns espectadores não reclamassem do filme se Spielberg optasse pela narração em off, dando um “quê” de fábula à Cavalo de Guerra. Mas quem disse que ele era obrigado a fazer isso? Quem deixou registrado em cartório que o maestro das antigas John Williams não pode tocar sua música o tempo todo? Quem disse que a montagem “suave” de Michael Kahn não pode ser baseada nos filmes da velha Hollywood? Por que ela deve ter ritmo de videoclipe? Quem ama cinema ficará nas nuvens quando Kahn emendar o crochê de Emily Watson na plantação do lado de fora da casa – uma das edições mais espetaculares que eu já vi. Por que a excepcional fotografia de Janusz Kaminski não pode estourar a luz nem carregar nas cores que lembram uma cena de E o Vento Levou? Entenda: não é imitação. Mais que referência é “reverência”. Tudo para Spielberg retomar duas vertentes do cinema americano: a valorização da família e a volta para casa, que tem a terra como um dos símbolos – um dos ouros de John Ford e o maior tesouro de E o Vento Levou.

Em Cavalo de Guerra,  Spielberg parece filmar com os mesmos recursos utilizados por John Ford, por exemplo. É um filme à moda antiga? Sem dúvida. Mas em espírito. A realização tem o apoio da tecnologia que os diretores daquela época não tiveram a chance de usar. Até onde foi a fotografia de Kaminski e os efeitos digitais? Não interessa. Ou você quer procurar onde o cavalo de verdade some para dar lugar ao CGI na impressionante sequência da corrida em disparada pelas trincheiras? E o que dizer do som do filme? Há poucos registros sonoros de longas sobre a Primeira Guerra Mundial capazes de serem reaproveitados. Talvez o mago Gary Rydstrom e Cia. tenham feito tudo do zero. Repare na cena (antes do estouro da bomba de gás) em que uma metralhadora alemã dizima a tropa inglesa. Seus disparos soam como “antepassados” da metralhadora que aniquila os aliados no desembarque da Normandia, na Segunda Guerra Mundial, em O Resgate do Soldado Ryan.

Spielberg ainda é fiel a Spielberg. O conceito de amizade, separação e conflito que resultam em superação já foi visto em Império do Sol, E.T. – O Extraterrestre, A.I. – Inteligência Artificial, e até em produções do cineasta, como a animação Fievel – Um Conto Americano. Spielberg dá de ombros para as acusações de jamais ter se tornado adulto. Um “Peter Pan”. Ouviu muito isso quando se aventurou pelo drama “sério”, em A Cor Púrpura e Império do Sol. Até fazer A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, Munique. Parece traição voltar a ver o mundo (e o cinema) com os olhos e o coração de um menino ingênuo? Ou como a velha e ingênua Hollywood da era de ouro? Soa mais como um problema a ser resolvido pelo espectador que ou não gosta de Spielberg ou desconhece sua filmografia, além de sua comprovada importância. Ou a própria epopeia do cinema americano.

Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Lee Hall e Richard Curtis
Elenco: Jeremy Irvine, Emily Watson, David Thewlis, Peter Mullan, Niels Arestrup, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch, Toby Kebbell, Patrick Kennedy, David Kross, Celine Buckens, Robert Emms, Rainer Bock, Geoff Bell, Leonard Carow e Matt Milne

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