fevereiro 24th, 2012

A Invenção de Hugo Cabret

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Era pra ter sido uma noite como outra qualquer. Eu tinha nove anos. Acordei no meio da madrugada. Meu pai dormia, com a TV ligada à sua frente. Nela, vi uma cena incrível. A de um homem de jaqueta e chapéu sendo arrastado por um caminhão. Preso no veículo apenas com a ajuda de seu chicote. Assisti dali até o fim. Mal consegui voltar a dormir. Somente pela manhã que eu fui descobrir o nome daquele filme: Os Caçadores da Arca Perdida. Nem fazia ideia de quem era Steven Spielberg ou Harrison Ford. O que eu sabia é que meu pai ia trazer o nosso primeiro vídeo pra casa, mas não consegui esperar acordado. Até aquele momento, eu só tinha ido ao cinema pra ver filmes infantilóides – você sabe como os pais não têm a mínima noção do que é bom pra criançada quando o assunto é cinema. Dali em diante passei a ter vontade própria quando o assunto era filme. Foi amor à primeira vista. Minha vida nunca mais foi a mesma.

Minha avó chegou a dizer em alguma parte da minha infância, que eu só queria ir ao cinema. E que isso talvez fosse uma fuga da realidade. Ela via como uma coisa boa, afinal eu não pensava na minha madrasta, que foi um pé no saco, e numa vida de lamentações por não ter vivido por mais tempo com a minha mãe, que deixou este mundo quando eu ia fazer apenas dois aninhos. Minha avó tinha razão. Eu sempre fui muito feliz numa sala de cinema. Pra mim, não existia diversão maior. E, de fato, eu esquecia de todo o resto por cerca de duas horas. Chegava a ter a impressão, ao deixar o cinema, que todas as pessoas estavam falando inglês por alguns segundos. Eu tive uma infância feliz sim. Por causa de pessoas queridas, como a minha avó, e também pelo cinema. Não tinha preconceito contra qualquer gênero. Só lamentava não ter idade suficiente pra ver esse ou aquele filme com uma censura mais rigorosa.

Talvez por isso eu tenha visto A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011) com imenso prazer. Da primeira à última cena. O filme começa com a história desse órfão (Asa Butterfield), mas, como num passe de mágica, vira uma homenagem sem precedentes à sétima arte. É o testamento de Martin Scorsese ao cinema. Fez seu primeiro longa em 3D (com o melhor uso da tecnologia até hoje) para fazer uma reverência ao que talvez seja o primeiro dos visionários, George Méliès. Como os caminhos de Hugo e Méliès se cruzam? Você precisa ver o filme pra saber. Não vou te contar. Mas como o tempo e a ansiedade para chegarmos aos nossos objetivos, tudo se sincroniza perfeitamente. Assim como seu homenageado, Scorsese promove o cinema como um lugar sagrado, ideal para se sonhar. Quem sou eu para estragar a sua experiência, caro leitor apaixonado por filmes.

Scorsese já fez tanto pelo cinema e não se cansa disso. Aos 69 anos, o cineasta de clássicos violentíssimos como Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros tem a coragem de se reinventar. Em tom de fábula, olha para vida real. Ao mesmo tempo, com os pés no chão, ciente de que vive do lado de cá da tela, ele se entrega – e nos convida – de corpo e alma para um universo de sonhos. Algo que se resume na visão do próprio menino, Hugo Cabret, que vive numa estação de trem parisiense dos anos 30, correndo pelos labirintos que ligam os relógios do local. Passando pelas engrenagens, Hugo observa o interior da estação por um relógio menor, que denuncia o cotidiano, a vida comum, sem surpresas. Do outro lado, consegue observar Paris em grande escala, épica, romântica, toda a sua beleza através de um relógio bem maior. Vislumbra esperança, sonho, expectativa. São duas visões diferentes que filmes distintos nos proporcionam ano após ano. Embora coisas fantásticas aconteçam no dia a dia e a fantasia seja construída com base em elementos da realidade.

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Como nós, espectadores, Hugo só observa. Mas também se emociona, sem interferir no destino de cada um que passa por ali. É a magia do cinema. Como todos nós, que gostaríamos de ajudar nossos heróis em suas aventuras cinematográficas, Hugo tem a chance de fazer alguma coisa. Como se ele entrasse de cabeça no filme de sua própria vida.

Assim como eu, Hugo perdeu a mãe logo cedo. Confidencia à sua amiga, Isabelle (Chloë Grace Moretz), que, como eu, ia ao cinema para esquecer disso. Acho que muitos aqui já se “esconderam” no cinema pra deixar a realidade do lado de fora. Como eu, Hugo não achou justo perder a mãe. E logo depois, o pai. Mas são coisas que acontecem com todos. Mais cedo ou mais tarde.  O que nunca acaba? O cinema. E a nossa vontade de seguir em frente, inspirados por nossos heróis dos filmes, dos livros e da vida real. Hugo também segue em frente e tenta fazer algo para mudar a condição de espectador passivo.

Amante e estudioso do cinema, Scorsese restaura filmes antigos, esquecidos ou maltratados pelo tempo. Essa vertente do diretor é devidamente retratada em A Invenção de Hugo Cabret. É um ensinamento pra todos nós. Na época de George Méliès, muitos filmes e diretores caíram no esquecimento, graças às duas guerras mundiais, às crises econômicas que devastaram o Planeta. Não havia estrutura. O digital era um sonho distante, ainda desconhecido. A morte da arte veio sem dó nem piedade para alguns artistas. Outros se recuperaram e sobreviveram ao tempo. Hoje, Martin Scorsese e tantos outros conseguem salvar os filmes antigos. E aqueles que são feitos hoje, obviamente têm todo o suporte pra durar eternamente.

Mas sem a gente, os filmes e qualquer arte não sobrevivem. A maior invenção de Hugo Cabret talvez seja passar esse conhecimento adiante, jamais deixá-lo morrer. É nossa missão ensinar, divulgar ou simplesmente mostrar o que vimos aos nossos filhos. Não no ato de gravar um filme ou guardá-lo na estante. Mas em promover uma sessão de cinema. Ou até conversar sobre um filme, seus significados ou mesmo sua importância para uma geração. Mas passe isso adiante. Conte aos mais novos sobre os seus mestres. Conte como foi a experiência de ver aquele filme inesquecível. Diga com quem você foi. E quando. Essa certamente será a sua maior invenção.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan
Elenco: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Chloë Moretz, Sacha Baron Cohen, Helen McCrory, Christopher Lee, Michael Stuhlbarg, Emily Mortimer, Jude Law, Richard Griffiths, Frances de la Tour e Ray Winstone

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