A Invenção de Hugo Cabret

Era pra ter sido uma noite como outra qualquer. Eu tinha nove anos. Acordei no meio da madrugada. Meu pai dormia, com a TV ligada à sua frente. Nela, vi uma cena incrível. A de um homem de jaqueta e chapéu sendo arrastado por um caminhão. Preso no veículo apenas com a ajuda de seu chicote. Assisti dali até o fim. Mal consegui voltar a dormir. Somente pela manhã que eu fui descobrir o nome daquele filme: Os Caçadores da Arca Perdida. Nem fazia ideia de quem era Steven Spielberg ou Harrison Ford. O que eu sabia é que meu pai ia trazer o nosso primeiro vídeo pra casa, mas não consegui esperar acordado. Até aquele momento, eu só tinha ido ao cinema pra ver filmes infantilóides – você sabe como os pais não têm a mínima noção do que é bom pra criançada quando o assunto é cinema. Dali em diante passei a ter vontade própria quando o assunto era filme. Foi amor à primeira vista. Minha vida nunca mais foi a mesma.
Minha avó chegou a dizer em alguma parte da minha infância, que eu só queria ir ao cinema. E que isso talvez fosse uma fuga da realidade. Ela via como uma coisa boa, afinal eu não pensava na minha madrasta, que foi um pé no saco, e numa vida de lamentações por não ter vivido por mais tempo com a minha mãe, que deixou este mundo quando eu ia fazer apenas dois aninhos. Minha avó tinha razão. Eu sempre fui muito feliz numa sala de cinema. Pra mim, não existia diversão maior. E, de fato, eu esquecia de todo o resto por cerca de duas horas. Chegava a ter a impressão, ao deixar o cinema, que todas as pessoas estavam falando inglês por alguns segundos. Eu tive uma infância feliz sim. Por causa de pessoas queridas, como a minha avó, e também pelo cinema. Não tinha preconceito contra qualquer gênero. Só lamentava não ter idade suficiente pra ver esse ou aquele filme com uma censura mais rigorosa.
Talvez por isso eu tenha visto A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011) com imenso prazer. Da primeira à última cena. O filme começa com a história desse órfão (Asa Butterfield), mas, como num passe de mágica, vira uma homenagem sem precedentes à sétima arte. É o testamento de Martin Scorsese ao cinema. Fez seu primeiro longa em 3D (com o melhor uso da tecnologia até hoje) para fazer uma reverência ao que talvez seja o primeiro dos visionários, George Méliès. Como os caminhos de Hugo e Méliès se cruzam? Você precisa ver o filme pra saber. Não vou te contar. Mas como o tempo e a ansiedade para chegarmos aos nossos objetivos, tudo se sincroniza perfeitamente. Assim como seu homenageado, Scorsese promove o cinema como um lugar sagrado, ideal para se sonhar. Quem sou eu para estragar a sua experiência, caro leitor apaixonado por filmes.
Scorsese já fez tanto pelo cinema e não se cansa disso. Aos 69 anos, o cineasta de clássicos violentíssimos como Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros tem a coragem de se reinventar. Em tom de fábula, olha para vida real. Ao mesmo tempo, com os pés no chão, ciente de que vive do lado de cá da tela, ele se entrega – e nos convida – de corpo e alma para um universo de sonhos. Algo que se resume na visão do próprio menino, Hugo Cabret, que vive numa estação de trem parisiense dos anos 30, correndo pelos labirintos que ligam os relógios do local. Passando pelas engrenagens, Hugo observa o interior da estação por um relógio menor, que denuncia o cotidiano, a vida comum, sem surpresas. Do outro lado, consegue observar Paris em grande escala, épica, romântica, toda a sua beleza através de um relógio bem maior. Vislumbra esperança, sonho, expectativa. São duas visões diferentes que filmes distintos nos proporcionam ano após ano. Embora coisas fantásticas aconteçam no dia a dia e a fantasia seja construída com base em elementos da realidade.

Como nós, espectadores, Hugo só observa. Mas também se emociona, sem interferir no destino de cada um que passa por ali. É a magia do cinema. Como todos nós, que gostaríamos de ajudar nossos heróis em suas aventuras cinematográficas, Hugo tem a chance de fazer alguma coisa. Como se ele entrasse de cabeça no filme de sua própria vida.
Assim como eu, Hugo perdeu a mãe logo cedo. Confidencia à sua amiga, Isabelle (Chloë Grace Moretz), que, como eu, ia ao cinema para esquecer disso. Acho que muitos aqui já se “esconderam” no cinema pra deixar a realidade do lado de fora. Como eu, Hugo não achou justo perder a mãe. E logo depois, o pai. Mas são coisas que acontecem com todos. Mais cedo ou mais tarde. O que nunca acaba? O cinema. E a nossa vontade de seguir em frente, inspirados por nossos heróis dos filmes, dos livros e da vida real. Hugo também segue em frente e tenta fazer algo para mudar a condição de espectador passivo.
Amante e estudioso do cinema, Scorsese restaura filmes antigos, esquecidos ou maltratados pelo tempo. Essa vertente do diretor é devidamente retratada em A Invenção de Hugo Cabret. É um ensinamento pra todos nós. Na época de George Méliès, muitos filmes e diretores caíram no esquecimento, graças às duas guerras mundiais, às crises econômicas que devastaram o Planeta. Não havia estrutura. O digital era um sonho distante, ainda desconhecido. A morte da arte veio sem dó nem piedade para alguns artistas. Outros se recuperaram e sobreviveram ao tempo. Hoje, Martin Scorsese e tantos outros conseguem salvar os filmes antigos. E aqueles que são feitos hoje, obviamente têm todo o suporte pra durar eternamente.
Mas sem a gente, os filmes e qualquer arte não sobrevivem. A maior invenção de Hugo Cabret talvez seja passar esse conhecimento adiante, jamais deixá-lo morrer. É nossa missão ensinar, divulgar ou simplesmente mostrar o que vimos aos nossos filhos. Não no ato de gravar um filme ou guardá-lo na estante. Mas em promover uma sessão de cinema. Ou até conversar sobre um filme, seus significados ou mesmo sua importância para uma geração. Mas passe isso adiante. Conte aos mais novos sobre os seus mestres. Conte como foi a experiência de ver aquele filme inesquecível. Diga com quem você foi. E quando. Essa certamente será a sua maior invenção.
A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan
Elenco: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Chloë Moretz, Sacha Baron Cohen, Helen McCrory, Christopher Lee, Michael Stuhlbarg, Emily Mortimer, Jude Law, Richard Griffiths, Frances de la Tour e Ray Winstone



Perfeito


5 STARS!!! 5 STARS!!! Welcome to the World of Cinema!
DENIS
Não tinha como ser diferente, né? Abs!
Parabéns pela sua crítica e vou assisti-lo de novo urgentemente antes do Oscar.
DENIS
Desta vez em 3D, certo?
Otávio, acho que você se superou aqui. Scorcese que me perdoe, o filme é maravilhoso (infelizmente vi dublado, pois não há cópias legendadas onde moro), mas seu texto me fez pensar muito mais: os filmes que vi na infância, não deixar os filmes na estante, compartilhar experiências, passar adiante…Abs!
RUI
Muito obrigado! Abs!
Bonito seu depoimento,agora entendo porque você ama o cinema.Gostei de saber que Martin Scorsese faz o melhor uso do 3-D.Verei em breve.Agora que você já viu os principais filmes do Oscar,qual é o seu favorito:”O Artista”,”Os Descendentes” ou “A Invenção do Hugo Cabret”".Eu sei que vc deu 5 estrelas para os 3 filmes,mas qual faz jus ao prêmio máximo da academia.Abraço.
PAULO RICARDO
“Hugo” ; – ) Abs!
Me emocionei lendo seu texto. Não só pela paixão que exala de suas palavras – é claro que também compartilho disso, afinal achei o filme mágico e perfeitinho, já um novo clássico de Marty -, mas pela maneira como você leva pra sua infância, um ar todo nostálgico que confere ao discurso, muito bom. Você é um belo cronista e um crítico de primeira!
Abraço
CRISTIANO
Obrigado, meu amigo! Na verdade, não foi o texto. Foi o filme que me levou para uma viagem no tempo. Para a minha infância. Às vezes, cinema também é isso. Abs!
Em prantos aqui… com certeza a crítica mais emocional do maravilhoso filme do Scorsese.
Obrigado pela coragem de expor de forma tão sensível e consegui com isso exaltar ainda mais a arte do cinema.
Assim como vc eu tb já fui “acusado” de viver no cinema para fugir da realidade. E vamos combinar como é bom estar em tantos mundos e conhecer tantas pessoas diferentes, não é mesmo?
Cara estou emocionando nem sei direito o que escrevi, parabéns para a crítica mais linda que li nos últimos anos.
KADU
Muito obrigado! Eu que agradeço pelas palavras tão gentis. Abraço!
Se você não desse 5 estrelas eu chamaria o Tommy De Vito pra ter uma conversinha em particular com você.
Eu já havia lido o livro e scorsese conseguiu deixar tudo ainda melhor, transformou um livro muito bom sobre uma história que envolve o cinema em uma obra-prima cinematográfica.
E, sim, isso é 3D. Finalmente. Isso prova que 3D é pra ser usado por quem entende realmente de cinema, como Scorsese. Pela primeira vez um 3D espetacular e que não quer “aparecer mais que o filme”.
Scorsese mereceu o Oscar várias vezes e ganhou por um filme que não acho tão bom, dessa vez ele merece totalmente, essa obra-prima merece o Oscar.
Ah Otávio, meu primeiro Indy na infância foi O Templo da Perdição, lembro até hoje vendo na TV à noite e completamente maravilhado. Fui ver pois lembrava um jogo do Atari que eu adorava, ainda bem que fiquei acordado até tarde ….
ROBSON
Hahahahahaha, ficou acordado até tarde? Enfim, Peter Jackson disse certa vez que “Avatar” ia provar que o 3D não era um recurso, mas uma linguagem. Não sei se concordo, pois foi banalizado com as várias conversões. E agora vem esse “Hugo” pra mexer com a nossa cabeça. Pode ser que o 3D venha a ter a importância que o som teve. Não sei. Sei é que, pelo filme de Scorsese, pude perceber que Méliès já pensava tridimensionalmente. Um gênio homenageando outro gênio. Fantástico! Abs!
E aquele momento que você percebe que não assistiu o filme e cada vez que olha textos tá louco para ver mas o seu trabalho te dá chibata e nem tens tempo de ver?
FAIL
AI NIDI TU SI THIS XITI!
JOÃO PAULO
Hahahahahahaha… Veja logo, Champs! Abs!
Foi perfeito Otávio! Não o filme, pois ainda não o vi (assistirei hoje e estou hiper ansioso), falo da sua resenha, espero que eu consiga ao menos a metade deste impacto que o filme causou em você, ótimo texto!
Concordo Otávio. E já imaginou o Mélies vendo esse filme em 3D hoje em dia??? Mostrando cenas dos filmes dele? O cara ficaria maravilhado.
p.s1: eu era muito criança quando vi o Indy, não podia dormir muito tarde rsrsrs
p.s.2: a cena de Viagem à Lua me marcou por causa da abertura do programa Top TV da Record.
Um detalhe interessante: vi com minha namorada. O cinema estava cheio de crianças pequenas. Minha namorada disse: acho esse filme meio longo e talvez um pouquinho complexo para elas. Eu disse: Não subestime a molecada.
Resultado: saíram felizes da vida e fazendo várias perguntas aos pais. Virei pra minha namorada e falei: Não disse???? rsrsrrs.
Com certeza será um filme que marcará elas e com certeza criou futuros cinéfilos.
Maravilhoso texto.
Tomei a liberdade de mencioná-lo juntamente ao último parágrafo de sua resenha no meu facebook, tendo em vista que também sou apaixonado por cinema, e achei esse ultimo (assim como o texto todo) muito tocante a mim. Caso não me seja permitido essa citação, retiro na boa o post ok. Fiz referência e tudo, mas caso seja para tirar, fique a vontade para pedir ok. Abraço.
JOSÉ BRUNO
Muito obrigado! Espero que goste do filme. Abs!
ROBSON
A diferença é que Scorsese pensa no filme. E não no lucro. Acho que Méliès faria o mesmo. E a garotada não pode ser ignorada. Espero que cresçam mais inteligentes que seus pais. Abs!
KADU
Pode usar sim. Fique a vontade. E obrigado! Abs!
Vc é foda, cara…
JAVIER
Você que é, brother. Quanto tempo, hein? Abs!
Homenagem maravilhosa – Linder, Keaton, Pabst, Chaplin, Griffith, Pastrone, sem falar no próprio Meliés. Fora de série.
Apesar disso, ele funciona dessa forma inebriante para quem ama cinema – e mais ainda para quem reconhece tantas citações, até às brincadeiras que ele faz. Scorsese, pela primeira vez, é referencial ao extremo, faz questão de mostrar a cena mais famosa de O Homem Mosca para que a plateia reconheça isso depois quando Hugo fica pendurado.
Mas percebi que ele não funciona da mesma forma para quem não nutre essa mesma paixão ou tem essas mesmas referências que nós.
É um filme de um apaixonado para outros apaixonados, e funciona assim para esse público. Aos demais, resta um belo filme com ritmo irregular.
A mim, resta um filme nostalgicamente emocionante.
PS: Minha paixão pelo cinema também nasceu com “Caçadores da Arca Perdida”. É, provavelmente, meu filme da vida e o que mais vou fazer questão de ver ao lado do meu filho daqui alguns anos.
FÁBIO
Talvez você tenha razão e o filme não fale diretamente aos que não são cinéfilos. Mas só posso dizer uma coisa a essas pessoas: eu sinto muito. Abs!
Otávio, belíssimo texto, como vários amigos haviam me apontado. Interessante saber sua relação de amor com o cinema. Tive algo assim também, crescendo numa sala de cinema. Quanto ao filme, embora acho que tenha defeitos – e tem -, são maquiados pela magia dele, me emocionei profundamente e chorei igual uma criança.
Obs.: Otávio, acho que você deveria abraçar o gênero da crônica, porque seus textos se encaixam perfeitamente no gênero, já em resenha crítica não se enquadra muito bem
Fábio, concordo muito com vc cara. O pessoal que não é cinéfilo e que viu o filme, conversando com eles a maioria achou um filme bom ou “bonzinho” e nada mais. Os cinéfilos, como eu, saíram extasiados.
Achei interessante também o comentário a respeito da caverna de Lascaux na França, pois pesquiso HQs e lá é considerado o início das HQs e, pelo o que o filme diz, do cinema também.
JÚLIO
Opa, desculpa aí. Vou pensar no teu caso. Ok? Mas antes disso, vou rever “Hugo Cabret” antes do Oscar. Pena que não está passando mais “Cavalo de Guerra”. Abs!
Muito bonito seu texto, me tocou. Não costumo ler criticas antes de ver o filme, mas essa não aguentei. Vc acha que minha filha de 6 anos iria gostar de Hugo??
NIZO
Muito obrigado! Talvez o filme possa ser um pouco cansativo pra ela. Não sei. Não é o “infantil” que as crianças estão acostumadas no atual cenário hollywoodiano. Parece um “infantil” da época de um… “Mary Poppins” talvez. É levado mais… a sério. Entende? Abs!
Pow irmão, me sinto obrigado a deixar um comentário aqui. Texto sensacional, sensacional mesmo. Se eu pudesse curtir mais de uma vez, o faria com o maior prazer. Parabéns pelo blog e pelos textos geniais que você produz. É nois irmão,rsrs!
Maravilhoso filme. Pena que não vi em 3D graças à dublagem. Se tivesse ganho o Oscar principal eu não teria reclamado (mas também não vi O Artista ainda).