fevereiro 17th, 2012

O Artista

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O Artista (The Artist, 2011) é uma homenagem de coração escancarado aos primórdios do cinema. É a sétima arte pela sétima arte.

O diretor francês Michel Hazanavicius sabe que você está ciente de que o filme é mudo e rodado em preto e branco, com trilha grandiloquente da época e tudo o que tem direito. Em poucos minutos é muito provável que você esqueça a técnica e entre de cabeça na história, simples, mas envolvente; o essencial do cinema. Aliás, quem ama filmes estará diante de um prazer imensurável. É incrível como O Artista oferece uma experiência cinematográfica arrebatadora, inversamente proporcional a de um Avatar, maior representante da era digital.

Não apenas isso. O filme de Hazanavicius critica sutilmente o triunfo da técnica sobre a arte. E aí não coloco a culpa em James Cameron, mas em Michael Bay e outros alunos que só estudam pra passar de ano e não pegam o espírito da coisa. Em fases distintas do cinema, visionários mostraram o caminho, mas Hollywood preferiu explorar o formato, estabelecer tendências, esgotar fórmulas até não dar mais, jogando as origens e os ensinamentos na lata do lixo. Evoluir é necessário. O novo pode e deve substituir o que já foi novidade. Mas não devemos esquecer dos pioneiros. Para chegarmos ao futuro é preciso compreender o passado.

E O Artista assume essa responsabilidade copiando suas fontes. É um filme mudo sobre a era de transição para o cinema falado, que acabou com a carreira de muitos talentos (e também apresentou tantos outros). Começa em 1927, exatamente quando o primeiro filme sonoro (O Cantor de Jazz) chegava aos cinemas. Um tema que já rendeu clássicos como Crepúsculo dos Deuses e Cantando na Chuva.

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O Artista
acompanha a jornada de George Valentin (o magnífico Jean Dujardin), um astro do cinema mudo aproveitando seu último sucesso antes de Hollywood se deslumbrar com o som. O ator intransigente confia no potencial da arte em seu trabalho e a defende até não poder mais.

Se recusa a entrar na nova onda e vê a garota anônima – que ele mesmo ajudou a ingressar no showbiz – voar alto na indústria e se tornar Peppy Miller (Bérénice Bejo), a queridinha da era do cinema falado. Paralelamente ao sucesso da moça, Valentin cai inevitavelmente em desgraça. Talvez o termo apropriado a ele não seja “convencido” ou “orgulhoso”. Talvez George Valentin, como sugere o título do filme, seja de fato um artista, apaixonado pelo que faz. E como faz.

Agora vamos tocar num ponto importante. Você pode até insistir em comentários da estirpe: “A história do filme é simples”, “Não traz nada de novo”, “Logo será esquecido”. Enfim, não acho que O Artista será esquecido futuramente. Só pelo fato de terem feito um filme mudo nos dias de hoje é motivo para jamais esquecê-lo. Mesmo se fosse ruim. E ele não é. Longe disso. Mais importante que isso, quero chamar a sua atenção para um detalhe que toma conta de 10 entre 10 cinéfilos de carteirinha (e estou nesse bolo). Apaixonados pela sétima arte, nós exercitamos o olhar crítico. É inevitável. De vez em quando, esquecemos que o ato de sentar numa poltrona de cinema e reverenciar o apagar das luzes é um ritual e, ao mesmo tempo, um convite para se perder num mundo que só existe do lado de lá da tela. E que devemos nos entregar de coração a essa diversão. Sim, uma diversão que não tem nada de corriqueira e leva cerca de duas horas, mas que pode durar para sempre se você deixar. Filmes também estão aí com esse propósito. Não somente para serem vistos, mas sentidos. Por que não? E O Artista cumpre seu objetivo de forma esplêndida, reverenciando o tipo de produção que significava o entretenimento dos anos 20 ou 30, arrastando multidões a uma novidade chamada cinema. Se você se entregar,  talvez chegue sem fôlego na espetacular sequência final, que joga os filmes numa outra era. Talvez se pegue chorando, de alma lavada, em êxtase total, ou, no mínimo, aplaudindo de pé.

É o cinema como espetáculo de imagem, som e atuação. Nem é preciso saber todas as falas do roteiro (do próprio Michel Hazanavicius) para tudo fazer sentido. O Artista é um milagre do cinema e ainda se dá ao luxo de ser moderninho, afinal reserva algumas brincadeiras com o uso do som. Inclusive é dramático demais para um longa daquele período. É ousado ao fazer uma de suas personagens mostrar o dedo do meio numa cena. É irônico numa cena de incêndio, que talvez não fosse rodada na época, até porque a película era inflamável. Licenças poéticas, claro. Mas o importante é que jamais se imaginou, que um dia, em pleno século 21, alguém voltaria a fazer filmes mudos. E que o mundo ainda teria a capacidade de se emocionar com essa proposta. No fim, George Valentin estava certo.

O Artista (The Artist, 2011)
Direção e roteiro: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell e Penelope Ann Miller

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